quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

Noctâmbulos



Emanuel Régis e Tetê Macambira        Fortaleza, 15 de agosto de 2012)

Pois é noite.
A noite que os homens translúcidos de febre
enfrentaram em forma de sal e sombras num infinito século XVI
Pois é noite.
E eu, homem do século XXI, sul-americano
ainda reconheço  como a uma irmã
e sei que não me pertence
como nunca, a ninguém
Pois é noite
E os sonhos de duas mil gerações
Repousam sobre o meu corpo de 30 anos
sem traição, que não seja a da tristeza
Pois é noite
E a alegria das luzes das esquinas
Renova cada grão feroz do tempo
Que as fotografias não conseguiram cristalizar
E os relógios não marcassem os segundos
Mas tiros de canhão sobre a minha mente
e cada grão de areia nos meus sapatos
me ensinasse a beleza dos precipícios
Pois que ainda é noite
e as páginas viradas não me pertencem mais,
memórias, apenas histórias e estórias para contar
em noites de bebedeira com uma que não é mais eu
(era, mas meu tempo de agora é o presente em que vivo)
narrativas longínquas meio verdadeiras meio fantasiosas
- posto que tempo e distância a tudo embruma –
mas que me ouvem perplexados de tê-las vivenbrincado
e não me esqueço nunca de que minha noite, na real,
é este momento em que risco essas letras no quintal cheirando folhas de malvarisco
Pois é noite.
E não se pode parar para nada, apenas vive-se.
Apenas vive-se, como se alternativa nula
Como se o tempo, um brinquedo inofensivo
Como se os dias, uma ilusão do pensamento
E a morte, essa alegria inenarrável,
Brincasse sobre os meus cabelos brancos
E me ensinasse que sob o  contato frívolo
com outro corpo, outra verdades revelasse
e cada boca, que beijava minha boca
e com sexo, que tocou o meu espírito
fosse, não uma carícia , mas uma lição
que os passos sardônicos dos dias
marcou sobre o meu corpo precário
E a noite continua incólume (embora eu a sinta gota a gota)
E o tempo me é anacronicamente inviável
já que meu tempo é meu e não paro para medir-lhe  a circunferência
Pois há noites  e noites  nos anoiteceres
e que,  se se para a fim de se mensurar cronologicamente,
para-se
e não se vive e a(s) minha(s) noite(s) passa(m)
e as luzes e as risadas e as tristezas
e os vômitos de declarações anódinos dele e dela
e minhas desilusões e meu dinheiro e essas anáforas infelizes
se passam em várias noites feericamente apagadas
do subconsciente da minha percepção astral
A minha noite é esta. Meu tempo é este.
O que me passou, memórias. O que virá, surpresas.
O que virá, surpresas? Não, certezas
sob as notas incertas que se desprendem
do sol que me banha a cada dia
Mas o dia, como um amigo a quem não confio
Há de trazer-me no discurso feito de brumas
uma verdade feita de labirintos
um coro, feito de cantores cegos,
em que cada porta será um deus
sem correntes, sem cordas, ou um demônio
em que minhas mãos ou os meus pés
acreditarão, como uma casa
em que não  tenho certeza se algum dia morei..

Andava


- Sonhei com você ontem à noite.
- Foi?! Me conta, vai!
- Ah! Simples: eu andava e andava, sob chuvas fortes e tenebrosas, sob sol causticante - e você, sempre lá comigo, ao meu lado.
- Nossaaa.....
- É, mas aí, felizmente, acordei.

(Tetê Macambira, 25 / 04 / 12)

(título sugerido por Jackie Pereira)

Com o coração nas mãos


Tive que fazê-lo.
Doeu.
Nele. 
Em mim.
A sensação de ter o coração dele sangrando em minhas mãos
não dá aquela pretensa sensação de poder
nem tampouco nenhuma vingança
- nada disso.

Dá é vontade de correr atrás dele e soldar com beijos o coração de volta no peito.

(mas isso já não me cabe fazê-lo; não mesmo)


(Tetê Macambira)

imagem não-autoral

Desabafo


Devia mesmo era pegar o trem para chegar à tua porta.Mas uma D.R. agora me sabe assim despropositada. Não te quero, apenas.

Desejo - somente! - um esconderijo que me recolha e me deixe dormir sossegadamente neste findi.Enquanto não me decido o rumo tomado, sento sob a brisa que me põe os cabelos à boca minha e me despenteia as ideias. Ah, santa Bohemia! Flashback no ar. Uma lágrima se me escoa do canto externo do meu mais esquerdo olho.  Que há? apenas a força de tantos bocejos amiúdes.
Sono.
Cansaço
Dormir
            Ao teu lado?
                                 - não o sei.

(Tetê Macambira

Luta por mim, porra!


Por que não brigas por mim?
Por que não te jogas nos trilhos por mim?
Por que não sobes à mais alta torre desta cidade
e gritas que me amas demais?

Por que não me convences
de que estás doido por mim,
...................desvairado,
...................alucinado,
prestes a cometer mil loucuras por mim?

Parabéns!
 ............ - Preferiste comprar um computador.

(Tetê Macambira)

À uma mulher-jaguatirica


À amiga Quezia Pessoa

Quezia é mais que mulher
é mais que amiga guerreira
é mais que paixão em francês e em português
é marruá - mulher que vira onça
gata selvagem em tamanho P
jaguatirica chat-tigre ocelot


tem a garra da gata selvagem
tem a beleza espontânea da felina
tem o olhar de ataque e de defesa
tem a força do carvalho
tem a pinta da ferocidade contida civilizadamente
tem o necessário à sobrevivência na selva de concreto

cuidado! olha ela lá passando:
alguém que, simplesmente, não passa despercebida.

(Tetê Macambira)

imagem: Pintura de Glenn

Vermelho


Emanuel Régis e Tetê Macambira Fortaleza, 15 de agosto de 2012 

Cansado de viver o que dizem, de saber o que pensam, de curtir o que soltam
Foda-se! liberdade é uma puta travestida de silicones mal injetados – e agora, tortos
procuramos a liberdade não no fim do arco-íris homossexualizado, mas na “frialdade inorgânica” das redes virtuais
e continuamos em busca de conceitos tão sem sentido quanto liberdade, amor, felicidade, ...
Quando o que mais necessitamos é apenas uma conta bancária e um bar sempre aberto com um garçom simpático
(e nada daquelas assépticas ideias de reuniões pseudointelectualizadas de gente que se reúne para fazer... arte.)
Arte!... para que essa merda? Arte não enche barriga nem me deixa acefalicamente me julgar feliz
Arte é o anticristo dos conceitos e das tradições da felicidade, do amor e da liberdade
Porque quando se pensa em se criar arte... abre-se os olhos e enxerga a claridade cegante de que tudo isso é ilusão
Há uma corda apertando eternamente a garganta do meu tio que se enforcou
Há um rosto virando-se com asco eternamente para mim
Há uma música que brota dos meus poros
E que nunca, jamais, conseguiu agradar outra pessoa
Há os mortos que eu carrego do lado esquerdo
e que me faz andar meio de banda
que para os outros só é motivo de riso
Há sonhos que só tenho à noite
E que o dia alheio não pode e nem quer traduzir.
Sou, então, uma montanha que não se escala?
Sou, então, um rio inavegável?
Sou, então, um poema abstruso?
Ou alguém, que apenas paga suas contas
Esperando desse gesto, inútil e tolo,
Uma verdade de que o vento não está grávido?
E as sementes todas estarão condenadas à natimortalidade?
Cansado, repito, cansado. “Um urubu pousou” na minha cegueira e lá defecou.
E me fez ver. E eu vi. Eu vi. Eu vi.
(mas mesmo que eu veja e veja e veja, isso não me faz esquecer de que sou ele e ela e que sou todos os que querem andar nus pelas praças carregando arcos e flechas para furar os olhos de policiais e de políticos numa vingança selvática mas certeira dos dardos envenenados das línguas soltas dos grilhões e que desejam sair de seus quintais soluçantes e vomitar tudo o que buscam tudo o que anseiam
- tudo o que temem.)
Era uma manhã de domingo numa quarta-feira qualquer
ela saiu de táxi e quando o táxi voltou, vinha com ele
e o motorista me sorria cúmplice das idas e vindas na madrugada
O sangue escorria pelos meus dedos a morte do jamais
e nem ninguém jamais saberá o quanto eu me quis de morta
- mas a vida já te traz a morte.
E daí? escolher a hora de se levantar intempestivamente
“Maria da Tempestade” catava o ópio de dentro das bonecas de porcelana
e se entregava à chuva que lhe escorria rosto seios ventre sexo coxas pés
e eu me via me transformando em tempestade molhada úmida inundando os outros
mas, súbito!, levantar, sair, apenas murmurando um frio e corriqueiro “TIAU”
(mas com um tom definitivo de quem costuma nunca mais olhar para trás)
entre os olhos: calibre 22. Tudo o que eu queria naquele dia.
Mas ele não me veio comer minha existência cansada.
Cansado – sim, eu sei que já disse isso.
Cansado a mais nunca mais ver ninguém nem tudo.
As palmeiras que enfeitavam meu precipício
me davam ares de riso bufão e cínico
e pela primeira vez eu tinha dedos
acariciando minhas borboletas
que eram tristes como uma lua ensanguentada
e os cavalos corriam pelos meus pelos
como torrentes de anjos decapitados
Houve um tempo nas montanhas de canivetes
em que os lobos copulavam com os cordeiros
e as asas dilaceradas dos ratos
eram iguais a relógios derretidos
e sem nenhum foguete ou rua louca
as folhas verdes balbuciavam nos meu ouvidos
que o grito da embriaguez é mais sábio
que o sussurro da chuva
na casa dos anões
Olhos, bocas, caralhos, cus
valem mais que a sentença espirituosa
dos sapos tristes ao sol do meio-dia.
Você, sábio que compõe versos,
vale mais do que quem mata por dinheiro?
A desejada visita do fim desse meu eterno cansaço
“blasé”? nem!... cansatividade de vero.
sofrer pequenas mortes alegremente ressuscitando após o terceiro coito
e sofrer a dura cena exaustiva de abandonar para então
nem que tivesse folhas e ervas se me agarrando aos membros
deixaria de não engolir a feminilidade dela e dela e dela
o sonho erótico tornado pesadelo me dando tesão
algo que foi dito de forma natural que me aqueceu por lá por baixo
mas, que diabos!, eu, que ando cansado de tudo isso
os carros me chamam à rua, sei que ainda há um bar que não conheço
e que poderei me sentar, sozinho, e ficar sem ser obrigado a fazer cara de quem faz algo
apenas aquele cara que pensa que me conhece e que me vem e diz e me olha de um jeito que não sei se é curiosidade se ele está equivocado ou se é cantada.
Um dia fui puxado para dançar mas não havia música
Bêbadas não são engraçadas depois de algumas horas bebendo.
E a rotina me obriga a fingir que está tudo bem comigo
(dizem que se se preocupam comigo, mas a quase certeza me sussurra nos dois ouvidos que eu tenho mais é que me jogar debaixo do trem – aí, sim, eles todos suspirariam aliviados, pretendendo alarme espanto e atonitez)
Bizarro é fazer parte disso e acabar jogando o jogo
e acabar gostando de jogar o jogo
e acabar ganhando o jogo de jogar
Hipócrita, na realidade.
Ela me dava os vidros vazios que eu distribuía na minha rua
ganhei simpatias de ambas as partes por carregar vidrarias sujas.
Nem sempre o que se espera, vem. Mas, às vezes, vem sim.
E as projeções de um futuro nada mais nada menos que a rota de escape
Curtem sadomasoquismo porque é bom mandar. Adoro o som do meu tapa na cara.
Bem mais estalado do que o som nas bundas.
Ela se assustou. Fechou as pernas. Na vez seguinte, fechou os olhos implorando: Me bate!
Vida masoca, essa! Futuro é a rota de escape do não suicídio.
- Não posso morrer porque terei um compromisso e precisam de mim.
Mentira. Ninguém precisa de ninguém.
Uma desculpa infantiloide para que não me mate esta noite
sem deixar nem sequer um estúpido bilhete de despedida.
O sangue jorrava do seu rosto, espirrando gotículas vermelhas
A única coisa que eu pensava era:
- o sangue esguicha mesmo!
Bom saber.
Dizem que sangue é vida. E o que no corpo seria a morte?
Cansado. Por isso essa insistência imbecilizante tanatológica.
Morte. Morte. Morte. Morre....
quase me engano, e, por pouco, não falo
Vida...
Bandeiras e rotas incrustadas no meu peito.

(ainda inacabada...)