Eron Júnior & Tetê Macambira
Minha vida, rascunhos
- assim também meus escritos,
são exercícios; o "lixo", por assim dizer
- experimentações mal acabadas
que me definiriam, talvez,
Aterro podre do que passou
Passou e não ficou,
Passou e não vingou,
Eu, continuação de descontinuidades vividas por outros
Outras vivências inadequadas
outros viveres estranhando-se
o se entranhar em meus dentros
E eu, que nem sei onde me deixei
Que nem sequer me reconheceria fora de mim
Os meus dentros,
Ou os meus poços,
Ecoando água sem fim
Num desatino em que vejo passarem os "lixos",
raiados de sangue e rajados de medos
meus falhos exercícios faltosos
fetos ideológicos abortados
sonhos natimortos - tudo o que deveria ser
e nunca nem chance alguma existiu.
Oh filho raiado de sangue e rajado de medo
Aborto do ventre encéfalo
-Não ser-
Sonho abortado pela vida
Ou eu ou você
Tem o direito à vida
Não há espaço aqui
Um só pulmão deve respirar esse ar pesado
-carbono, carbono, carbono-
Filho simbiótico do paterno
Na velhice me visitas
Com outras roupas
Chamadas nostalgia
e, nesse momento porvir, que me direi eu?
que bem me vivi a vida dada e ofertada?
que nem aproveitei o que me fora possibilitado?
acenda meu fogo, queime o disco lentamente
quero a melhor gravação de meus passos passados
track por track, faixa azul por excelência
queimando os dedos da mão esquerda
relaxando ao som de outroras enquanto
o futuro que vigio me convoca maciamente
Futuro macio, macio e venenoso
Repousando sua mão sobre minha cabeça
Acariciando minhas memórias
Sussurrando Cartola no meu ouvido
Que perguntas me faço?
E de que me adiantam perguntas
se não existem respostas?
Único trilhar: seguir criando erroneamente
meus lixos, reciclando, quiçá!, os alheios,
regurgitando e ruminando os rascunhos
mal traçados e nunca acabados
(vai que algum… enfim!)
- até que se perceba, um dia,
que não é ter belas palavras
nem respostas certas
: mas se tentar, inexorável e incansavelmente.
Tentando reciclar o lixo
Transformar o passado sujo e resto
em algo valioso
- Quem disse que no lixo não há diamantes?
- Diamantes nas mãos de mendigos -
No meu caminhar
Cobrar os tropeços das pernas
A tremedeira das mãos
O palpitar arritmado do miocárdio
O lubrificar dos lábios
E reunir a psicodelia do corpo a corpo
Extraindo, dos lixos nossos de cada dia,
o que acharmos de brilhantes verdadeiros.
(Eron Júnior & Tetê Macambira, em 16/09/15 às 17h18)