quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

Noctâmbulos



Emanuel Régis e Tetê Macambira        Fortaleza, 15 de agosto de 2012)

Pois é noite.
A noite que os homens translúcidos de febre
enfrentaram em forma de sal e sombras num infinito século XVI
Pois é noite.
E eu, homem do século XXI, sul-americano
ainda reconheço  como a uma irmã
e sei que não me pertence
como nunca, a ninguém
Pois é noite
E os sonhos de duas mil gerações
Repousam sobre o meu corpo de 30 anos
sem traição, que não seja a da tristeza
Pois é noite
E a alegria das luzes das esquinas
Renova cada grão feroz do tempo
Que as fotografias não conseguiram cristalizar
E os relógios não marcassem os segundos
Mas tiros de canhão sobre a minha mente
e cada grão de areia nos meus sapatos
me ensinasse a beleza dos precipícios
Pois que ainda é noite
e as páginas viradas não me pertencem mais,
memórias, apenas histórias e estórias para contar
em noites de bebedeira com uma que não é mais eu
(era, mas meu tempo de agora é o presente em que vivo)
narrativas longínquas meio verdadeiras meio fantasiosas
- posto que tempo e distância a tudo embruma –
mas que me ouvem perplexados de tê-las vivenbrincado
e não me esqueço nunca de que minha noite, na real,
é este momento em que risco essas letras no quintal cheirando folhas de malvarisco
Pois é noite.
E não se pode parar para nada, apenas vive-se.
Apenas vive-se, como se alternativa nula
Como se o tempo, um brinquedo inofensivo
Como se os dias, uma ilusão do pensamento
E a morte, essa alegria inenarrável,
Brincasse sobre os meus cabelos brancos
E me ensinasse que sob o  contato frívolo
com outro corpo, outra verdades revelasse
e cada boca, que beijava minha boca
e com sexo, que tocou o meu espírito
fosse, não uma carícia , mas uma lição
que os passos sardônicos dos dias
marcou sobre o meu corpo precário
E a noite continua incólume (embora eu a sinta gota a gota)
E o tempo me é anacronicamente inviável
já que meu tempo é meu e não paro para medir-lhe  a circunferência
Pois há noites  e noites  nos anoiteceres
e que,  se se para a fim de se mensurar cronologicamente,
para-se
e não se vive e a(s) minha(s) noite(s) passa(m)
e as luzes e as risadas e as tristezas
e os vômitos de declarações anódinos dele e dela
e minhas desilusões e meu dinheiro e essas anáforas infelizes
se passam em várias noites feericamente apagadas
do subconsciente da minha percepção astral
A minha noite é esta. Meu tempo é este.
O que me passou, memórias. O que virá, surpresas.
O que virá, surpresas? Não, certezas
sob as notas incertas que se desprendem
do sol que me banha a cada dia
Mas o dia, como um amigo a quem não confio
Há de trazer-me no discurso feito de brumas
uma verdade feita de labirintos
um coro, feito de cantores cegos,
em que cada porta será um deus
sem correntes, sem cordas, ou um demônio
em que minhas mãos ou os meus pés
acreditarão, como uma casa
em que não  tenho certeza se algum dia morei..

Andava


- Sonhei com você ontem à noite.
- Foi?! Me conta, vai!
- Ah! Simples: eu andava e andava, sob chuvas fortes e tenebrosas, sob sol causticante - e você, sempre lá comigo, ao meu lado.
- Nossaaa.....
- É, mas aí, felizmente, acordei.

(Tetê Macambira, 25 / 04 / 12)

(título sugerido por Jackie Pereira)

Com o coração nas mãos


Tive que fazê-lo.
Doeu.
Nele. 
Em mim.
A sensação de ter o coração dele sangrando em minhas mãos
não dá aquela pretensa sensação de poder
nem tampouco nenhuma vingança
- nada disso.

Dá é vontade de correr atrás dele e soldar com beijos o coração de volta no peito.

(mas isso já não me cabe fazê-lo; não mesmo)


(Tetê Macambira)

imagem não-autoral

Desabafo


Devia mesmo era pegar o trem para chegar à tua porta.Mas uma D.R. agora me sabe assim despropositada. Não te quero, apenas.

Desejo - somente! - um esconderijo que me recolha e me deixe dormir sossegadamente neste findi.Enquanto não me decido o rumo tomado, sento sob a brisa que me põe os cabelos à boca minha e me despenteia as ideias. Ah, santa Bohemia! Flashback no ar. Uma lágrima se me escoa do canto externo do meu mais esquerdo olho.  Que há? apenas a força de tantos bocejos amiúdes.
Sono.
Cansaço
Dormir
            Ao teu lado?
                                 - não o sei.

(Tetê Macambira

Luta por mim, porra!


Por que não brigas por mim?
Por que não te jogas nos trilhos por mim?
Por que não sobes à mais alta torre desta cidade
e gritas que me amas demais?

Por que não me convences
de que estás doido por mim,
...................desvairado,
...................alucinado,
prestes a cometer mil loucuras por mim?

Parabéns!
 ............ - Preferiste comprar um computador.

(Tetê Macambira)

À uma mulher-jaguatirica


À amiga Quezia Pessoa

Quezia é mais que mulher
é mais que amiga guerreira
é mais que paixão em francês e em português
é marruá - mulher que vira onça
gata selvagem em tamanho P
jaguatirica chat-tigre ocelot


tem a garra da gata selvagem
tem a beleza espontânea da felina
tem o olhar de ataque e de defesa
tem a força do carvalho
tem a pinta da ferocidade contida civilizadamente
tem o necessário à sobrevivência na selva de concreto

cuidado! olha ela lá passando:
alguém que, simplesmente, não passa despercebida.

(Tetê Macambira)

imagem: Pintura de Glenn

Vermelho


Emanuel Régis e Tetê Macambira Fortaleza, 15 de agosto de 2012 

Cansado de viver o que dizem, de saber o que pensam, de curtir o que soltam
Foda-se! liberdade é uma puta travestida de silicones mal injetados – e agora, tortos
procuramos a liberdade não no fim do arco-íris homossexualizado, mas na “frialdade inorgânica” das redes virtuais
e continuamos em busca de conceitos tão sem sentido quanto liberdade, amor, felicidade, ...
Quando o que mais necessitamos é apenas uma conta bancária e um bar sempre aberto com um garçom simpático
(e nada daquelas assépticas ideias de reuniões pseudointelectualizadas de gente que se reúne para fazer... arte.)
Arte!... para que essa merda? Arte não enche barriga nem me deixa acefalicamente me julgar feliz
Arte é o anticristo dos conceitos e das tradições da felicidade, do amor e da liberdade
Porque quando se pensa em se criar arte... abre-se os olhos e enxerga a claridade cegante de que tudo isso é ilusão
Há uma corda apertando eternamente a garganta do meu tio que se enforcou
Há um rosto virando-se com asco eternamente para mim
Há uma música que brota dos meus poros
E que nunca, jamais, conseguiu agradar outra pessoa
Há os mortos que eu carrego do lado esquerdo
e que me faz andar meio de banda
que para os outros só é motivo de riso
Há sonhos que só tenho à noite
E que o dia alheio não pode e nem quer traduzir.
Sou, então, uma montanha que não se escala?
Sou, então, um rio inavegável?
Sou, então, um poema abstruso?
Ou alguém, que apenas paga suas contas
Esperando desse gesto, inútil e tolo,
Uma verdade de que o vento não está grávido?
E as sementes todas estarão condenadas à natimortalidade?
Cansado, repito, cansado. “Um urubu pousou” na minha cegueira e lá defecou.
E me fez ver. E eu vi. Eu vi. Eu vi.
(mas mesmo que eu veja e veja e veja, isso não me faz esquecer de que sou ele e ela e que sou todos os que querem andar nus pelas praças carregando arcos e flechas para furar os olhos de policiais e de políticos numa vingança selvática mas certeira dos dardos envenenados das línguas soltas dos grilhões e que desejam sair de seus quintais soluçantes e vomitar tudo o que buscam tudo o que anseiam
- tudo o que temem.)
Era uma manhã de domingo numa quarta-feira qualquer
ela saiu de táxi e quando o táxi voltou, vinha com ele
e o motorista me sorria cúmplice das idas e vindas na madrugada
O sangue escorria pelos meus dedos a morte do jamais
e nem ninguém jamais saberá o quanto eu me quis de morta
- mas a vida já te traz a morte.
E daí? escolher a hora de se levantar intempestivamente
“Maria da Tempestade” catava o ópio de dentro das bonecas de porcelana
e se entregava à chuva que lhe escorria rosto seios ventre sexo coxas pés
e eu me via me transformando em tempestade molhada úmida inundando os outros
mas, súbito!, levantar, sair, apenas murmurando um frio e corriqueiro “TIAU”
(mas com um tom definitivo de quem costuma nunca mais olhar para trás)
entre os olhos: calibre 22. Tudo o que eu queria naquele dia.
Mas ele não me veio comer minha existência cansada.
Cansado – sim, eu sei que já disse isso.
Cansado a mais nunca mais ver ninguém nem tudo.
As palmeiras que enfeitavam meu precipício
me davam ares de riso bufão e cínico
e pela primeira vez eu tinha dedos
acariciando minhas borboletas
que eram tristes como uma lua ensanguentada
e os cavalos corriam pelos meus pelos
como torrentes de anjos decapitados
Houve um tempo nas montanhas de canivetes
em que os lobos copulavam com os cordeiros
e as asas dilaceradas dos ratos
eram iguais a relógios derretidos
e sem nenhum foguete ou rua louca
as folhas verdes balbuciavam nos meu ouvidos
que o grito da embriaguez é mais sábio
que o sussurro da chuva
na casa dos anões
Olhos, bocas, caralhos, cus
valem mais que a sentença espirituosa
dos sapos tristes ao sol do meio-dia.
Você, sábio que compõe versos,
vale mais do que quem mata por dinheiro?
A desejada visita do fim desse meu eterno cansaço
“blasé”? nem!... cansatividade de vero.
sofrer pequenas mortes alegremente ressuscitando após o terceiro coito
e sofrer a dura cena exaustiva de abandonar para então
nem que tivesse folhas e ervas se me agarrando aos membros
deixaria de não engolir a feminilidade dela e dela e dela
o sonho erótico tornado pesadelo me dando tesão
algo que foi dito de forma natural que me aqueceu por lá por baixo
mas, que diabos!, eu, que ando cansado de tudo isso
os carros me chamam à rua, sei que ainda há um bar que não conheço
e que poderei me sentar, sozinho, e ficar sem ser obrigado a fazer cara de quem faz algo
apenas aquele cara que pensa que me conhece e que me vem e diz e me olha de um jeito que não sei se é curiosidade se ele está equivocado ou se é cantada.
Um dia fui puxado para dançar mas não havia música
Bêbadas não são engraçadas depois de algumas horas bebendo.
E a rotina me obriga a fingir que está tudo bem comigo
(dizem que se se preocupam comigo, mas a quase certeza me sussurra nos dois ouvidos que eu tenho mais é que me jogar debaixo do trem – aí, sim, eles todos suspirariam aliviados, pretendendo alarme espanto e atonitez)
Bizarro é fazer parte disso e acabar jogando o jogo
e acabar gostando de jogar o jogo
e acabar ganhando o jogo de jogar
Hipócrita, na realidade.
Ela me dava os vidros vazios que eu distribuía na minha rua
ganhei simpatias de ambas as partes por carregar vidrarias sujas.
Nem sempre o que se espera, vem. Mas, às vezes, vem sim.
E as projeções de um futuro nada mais nada menos que a rota de escape
Curtem sadomasoquismo porque é bom mandar. Adoro o som do meu tapa na cara.
Bem mais estalado do que o som nas bundas.
Ela se assustou. Fechou as pernas. Na vez seguinte, fechou os olhos implorando: Me bate!
Vida masoca, essa! Futuro é a rota de escape do não suicídio.
- Não posso morrer porque terei um compromisso e precisam de mim.
Mentira. Ninguém precisa de ninguém.
Uma desculpa infantiloide para que não me mate esta noite
sem deixar nem sequer um estúpido bilhete de despedida.
O sangue jorrava do seu rosto, espirrando gotículas vermelhas
A única coisa que eu pensava era:
- o sangue esguicha mesmo!
Bom saber.
Dizem que sangue é vida. E o que no corpo seria a morte?
Cansado. Por isso essa insistência imbecilizante tanatológica.
Morte. Morte. Morte. Morre....
quase me engano, e, por pouco, não falo
Vida...
Bandeiras e rotas incrustadas no meu peito.

(ainda inacabada...)

Antecedências


À espera de risíveis reencontros, 
faz-se festa no varal, 
espetando expectativas a serem descartadas,
 lentas ou em sopetões, 
cores expostas no cordame, 
possibilidades a serem retiradas em momento azado; 
todo um festival dispensável em rendas 
no próximo ato: você.

(Tetê Macambira)

uma caipirinha e uma caipirosca


Reminiscências de forma vaga de algo que houve - ou não 


ao amigo Emanuel Régis



Academicismos etílicos ou mezzo etílicos ( embora eu nunca tenha entendido como o italiano consegue ser tão diferente do português, mesmo sendo tão parecido ao português - diferente do espanhol, que já me disseram ser uma nulidade aprender uma língua e que mais parece estarmos a falar a nossa de forma errônea - o que eu tive que concordar, ainda que meio de contragosto, quando me fizeram ler em espanhol (ou castellano), mas terminemos este parênteses que já está se alongando por demais da conta) ao redor da mesa e entre nós dois, amigos de letras e de versos. Na parte mais alta e mais distante daquele cantinho acadêmico havia dois amigos se reencontrando após uma longa invernada e superadas brigas e discussões.
Dizer que essoutro ou aqueloutro seja ultrapassado, é fácil por demais, meu caro! Basta dizer. Mas cadê aqueles outros que se põem na sequência ou mesmo na contracorrente? Quem são? existem, porventura? Ah! tuas ideias não correspondem aos fatos.. (Cazuza nessa hora tão inapropriada). Mas entende-se perfeitamente o não apreciares por ir de encontro ao teu ideário de perspectiva, de linha de pesquisa. OK. Aceitável bem, até. E, aliás, que linha , heim!! ou essa tua! - original por até além.
Mas teu tempo reduzido... estranho te ter agora por tão pouco. Habituara-me a falar contigo sobre o que eu quisesse dizer e sempre que me fosse possível. Sinto falta das nossas conversas. Mesmo das desavenças (para bem veres a que ponto  a saudade chegou cá em mim). Tuas ideias, embora eu nem sempre concorde com elas, me fazem falta. Amizades assim não morrem nem com o tempo. Que o digam meus pouquíssimos amigos de longa  data que permanecem meus amigos - apesar de mim (sim, ainda repito esta frase minha; meus amigos bem que a merecem). Esse teu tempo curto e ainda dividido por questões e vaidades alheias a nós dois. Mas três horas de viagem hão de minimizar isso, creio. Ponha água no feijão e avisa tua esposa... qualquer dia... estou chegando.
Rotas alteradas, rosas maceradas. Ouço ainda blues e jazz e rock e reggae e erudita e mais. Não há mais quintais em meus amanheceres. Que são agora pontuais feito o toque repetititvo do celular (feito aqueles despertadores de R$ 1,99 que se vendiam nas calçadas e cujo trinado continuava até morrerem pilhas) que me lembra de que virei operária-padrão; das 7h20 às 11h, toda manhã sagrada de trabalho. Outra vida, outra lida, outra coisa.
Mas e essa ditadura da companhia. Ah, maldita mpb e esse ultrapassadíssimo medievalismo romântico! É impossível ser feliz sozinho. Um: não existe essa coisa de felicidade. Dois: se houvesse, seria mais perfeitamente possível ser feliz sozinho, posto que não se depende de outrem. Isso é lógica pura. Creia-me: estou melhor do que jamais estive. Só. E bem. De verdade. Não é por não estar apoiada em um outro, como se fosse uma aleijada em cima de uma bengala, que isso não me faz estar bem. Uma psicóloga certa vez desabafou comigo que as pessoas que não gostam de ficar sós é porque não gostam da própria companhia. Concordo. E faço assim. Estou em um relacionamento mais do que sério - e certamente fiel e leal - comigo mesma. Espaço para um outro? - pode até ser, mas. Como uma outra pessoa já me disse, doutra feita: não estou procurando - mas também não estou evitando. Mas esta minha vida! tão cheia, tão repleta, tão plena que não me cabe mais em nada de nada. Talvez, por isso... (e tome minhas tão odiadas reticências, mas vá lá! afinal, trata-se de um texto puramente confessional e dentro da filosofia dos achismos, entonces !)
E a literatura. O desenvolver do meu estilo; a maciez da escrita da caneta que te fiz testar é a similar à do estilo que estou à cata em meu fazer literário. (não que este texto seja algum exemplo disso, longe disso! - por favor!). Um texto que flua com a insustentável leveza da palavra. A delícia em palavras bem colocadas e bem dispostas - que importam os ditos e as ideias, se as palavras são tão bonitas?!? - eh ! hehehe... brincadeiras de amarelinha e de contrapontos; cortázares & huxleys em meu caminho. E não somente eles. Muitos me ensinando até o como não fazer. o mercantilismo das letras me alertando com sinal vermelho o preciosismo (tão meu particular de leitora que se iniciou na biblioteca de casa mesmo, com a coleção completa e encadernada dos romances de Alencar. E quando ela me diz que falar comigo, é como se estivesse lendo Alencar, fico toda a me sorrir. Obrigada, Cazuza! Você sempre será - como bem decretou dom Pedro II ao saber de sua morte - um homenzinho teimoso. Tão teimoso que até hoje é válida a sua leitura. ), outros me mostrando o que pode ser possível. Tudo é material de pesquisa. A vida em si, ela também. Os bares da cidade, os que jamais visitaria, os que nunca entrarei, os que nunca entrei, os que deixei de frequentar - são tantos os bares desta vida.
E falando nisso: obrigada por me reaprumar aos locais que abandonei. Voltando e já. Coisas demais que nem foram ditas e tantas outras expressas em silêncios.


Boa viagem! - que a gente se reencontre e tenha mais ideias em mente e em vozes. 



(Tetê Macambira, em 03 de agosto de 2014)

ao ponto de origem


Queria poder sentir-me mal, de saudadinhas-já, mas não, nada. Sim, há algumas poucas mas excelentes pessoas de quem sentirei falta tanta e tanta que nem sei, mas, ainda assim... Alegria em observar os quadradinhos iluminados no chão ficando para trás enquanto alço voo por sobre nuvens. Vontades mesmo é de ir e não voltar. Terras alheias, com o tempo, cansam. E essa cidade de mar e sertão, já há tanto tempo ao meu redor... já me cansa desde o primeiro dia. Minha busca ao que me pertence se limita ao tangível.

E chegar. E voltar. É poder mergulhar de olhos fechados no abraço caloroso e amigo de quem me espera no aeroporto. É saber que sou bem-vinda, sim. Tantas e tantas vezes eu me vá... mas em minhas voltas, terei braços amigos à minha volta. Confortante. Aconchegante. Acolhedor. Lar.

E a cidade. Diacho de cidade bonita que é a minha! Lindinha por demais, de fazer doer de saudades e me fazer olhar para tudo com ansiedades de quem busca velhos conhecidos, de quem busca as novidades - a cidade em tranquilas mutaçõezinhas.  

E a baía a me esperar. À margem do rio, uma palafita: nenhuma outra se lhe avizinhando, ao menos até onde a vista alcança. Isolar-se à beira da civilização há de ser assim. Haverá energia elétrica por lá? Não vejo fios nenhuns; apenas verde muito verde por detrás e dos lados e água muita pardacenta e doce e morna água fluvial de cismada maré pela frente quase que a perder olhares. A vista me emociona como o diabo: eu sou, aliás estou, nesse momento, aquela palafita. Posso até me arrodear de amigos.  Mas cada um tem seu próprio trilhar. 

Vários tons de verde são discerníveis quando se aproxima mais. e uma tênue coluna de fumaça branca me franze rapidamente o cenho. O nativo, o ribeirinho, é o ser mais antiecológico. Em sua ignorância, ele crê a floresta ser perene. Ignorância - remédio maldito.

Meia hora de atravessagem de rio. Todos já tão habituados à paisagem que ou  olham hipnotizados a TV ou conferem celular. O vendedor de bolachinhas passa, oferecendo mudamente, com a mão em uma luva plástica, um de amostra grátis para cada passageiro. Mastigo e me dá vontade de mais. Procuro-o... Já vai longe tentar os outros.

Ônibus das águas. Poder-se-ia chamar assim - e o pronome mesoclítico me agrada.

Quase dez horas e tanta água e tanta umidade têm seu valor: o ar está mais fresco, quase frio. Uma delícia de brisa. O motor para. O moço me veio vender os biscoitos. Posso comprar quanto eu quiser. Peço um real. Ele põe a quantidade em um saquinho e me entrega. Mordisco. Desejos de café. Café Líder, por favor! É verdade!: não passo de uma papa-chibé. Você pode tirar a pessoa do Pará, mas o Pará jamais sairá de dentro da pessoa.

Entendi!: o comandante poupa combustível deixando o barco seguir, fluir na correnteza natural.

É quinta-feira. Minha terra morena. Meu vento verde. Meu lugar, meu coração. Meu rubro coração atravessado por uma faixa branca e a spica azul no meio.

A moça à minha frente retoca a maquiagem. Ela já é linda. A maquiagem a essa hora da manhã a faz parecer uma profissional, o que fica acentuado pelo vestidinho recoberto de paetês e os saltos altíssimos - e os cabelos com luzes. Por que toda profissional do sexo adota luzes dourando cabelos? é uma espécie de crachá?!?

Qual o coletivo de árvores? - bem, um coletivo de açaizeiros nos dão as boas-vindas. O barco agora retoma a sua rota, elabora uma curva, o porto se aproxima. As mulheres ao meu redor começam a se pentear. Sim, chegou a hora. o desembarcar efetuar-se-á (e tome  mais uma mesóclise!).

Chegamos ao porto. O ônibus está já à espera. O motorista toma café com leite, recebe os passageiros com um sorriso distraído e conversa com um vendedor perto. Olho ao redor. A tapioqueira, metida em um tênis roxo, verde-limão e rosa-choque, com meias de aeróbica azul-roial puxadas por sobre a legging ricamente floral em tons de rosa e uma camiseta amarela também vende café. E me pergunta afável mas objetivamente: "Café ou café com leite?". Com leite - sempre.

Minha passagem me assinala a poltrona 07. À janela, logo atrás do banco reservado aos idosos et coetera. Fazia tempos não viajava com vento na cara e cheiros de verdes estapeando o nariz.  O verde não me cansa. As casinhas interioranas parecem transbordar alegrias e placidez. 

As pessoas conversam em um tom baixo, a nossa voz pequena é música por demais e acalenta uma sonequinha. As casas de madeira pintadas em alegres tons vão rareando e dando lugar às de alvenaria: sinal de que a cidade está chegando. 

Como o homem paraense é gostoso e interessante! Altivo, másculo sem ser rude nem grosseirão, ele te olha fixa e escancaradamente com  olhos amêndoas fixas. De postura ereta, esses tupiniquins são altamente desejáveis.

Estrada vermelha sem ser de tijolos. É a terra desta terra. Uma hora de estrada  sem fim escorrendo quilômetro por quilômetro. O silêncio é um bom companheiro de viagem. Séculos haviam se passado (evidentemente hiperbólica forma de falar) sem que eu tivesse me permitido essa contemplação físico-mental. E a minha vida é vista sob parâmetros distanciados. Viajar para fora da situação a fim de melhro enxergar a situação em si pode ser aconselhável, em determinados momentos.

Minha vó sempre comentava as flores silvestres dos sertões nordestinos de sua meninice. Mas creio que tais flores lá se perderam nos tempos. No entanto, as florezinhas que diviso me acenando gaiatamente pela janela evocam a minha própria infância, feita de passeios dominicais à grande Belém do Pará. 

E chegamos.  Cidade quente. Porto com vendedorazinhas de comidinhas. Peço açaí. "Quer a dose ou completo?" - é o açaí das ilhas só batido, sem açúcar nem nada mais e peixe do rio frito. Um manjar digno da minha fome de papa-chibé. Hora de abocanhar comidinhas, hora de  fechar diário de viagem. 
(Tetê Macambira)

HD trocado



E foi assim mesmo: estava com meu bom e velho hd por já há pouco mais de dois anos... e , de repente, ele se foi para o céu dos hd's, um mítico lugar de códigos binários aleatórios e casualmente perdível; um paraíso ao que sempre teve que obedecer a comandos prompt e talz. Tentativas infrutíferas de salvaguardar arquivos, memórias e produções - perdidas a mais nem e nem. E teve que ser de assim mesmo; despedir de algos e logos que nem de tudo a mente alçava. Tempos jogados para além das mentes e das mentiras, para muito de para lá do oblivion.Mas surpresa mesma foi  surpreender-me com alguns dos dados resguardados da sanha do dano físico - nuvens poderosas que seguravam mundos. Coisas de que não me tinham mais haviam sido guardadas para nem precisão, outras perdidas de fato e de direito, pelo que mais que se parece (embora hajam boníssimas línguas sussurrantes de que haveriam possibilidades outras para além de horizontes.) A seleção do acaso aliada às querências dos instantes passados.
HD novo... resgatar velhices de nuvens suspensas... baixá-las em dados...  Analisar muitas de.
Suspirar pelas não-salvas, mas que deveriam de ter sido.
Eliminar outras tantas salvas por ... nem sei como precisar adjetivações propícias para tal, mas... Tiau.
HD trocado... formatar, salvar o que me for necessário para o agora e o aqui - mais  de  nada.

É! a vida, ela mesma, metaforiza-se.
 (Tetê Macambira)

Pelos púbis




Revoltou-se com a ditadura depilatória e deixou pelos púbicos livres de lâminas e barbeadores e ceras frias e quentes e laser e fio egípcio e tudo o mais.
Livres, os pelos cresceram, alongaram-se, ganharam comprimentos impensáveis e que transbordavam das exíguas tanguinhas. Teimosamente, não se submeteu à vontade de pelar pelos. Deixava-os, ainda, avolumarem-se.
Virilhas indefensáveis, criou joguinhos: Descubra em três minutos a úmida caverna doce e penetre em seu mundo quente e acolhedor. Ou: Sinta-se um desbravador das velhas Áfricas e afaste vegetações densas para melhor penetrar na profunda floresta negra.
Verdade: criatividade nunca ninguém poderá lhe negar. E de tal forma os joguinhos acabaram apimentando as situações que, de início, viraram comentários sutis em mesas de bar entre os fortuitos desbravadores, para depois caírem em refinados epigramas nas redes sociais. Até que um teve a brilhante ideia de escancarar como fora, como tinha se saído e tudo o mais em cores vivas de Matisse – embora sem imagens próprias (a não ser uma alusiva reprodução bem apanhada pela internet  de “A origem da vida”. )
Foi o que bastou. Logo, todos comentavam. Detalhadamente. Deliciavam-se nessa troca de inconfidências.
 Ela, nem tié-tiê para seu ninguém. Tinha outras preocupações a resolver em suas intimidades. Higiene de cabelos de cabeça já era demorada. Mas com a extensa peleira inferior  presa em caleçons e pantalonas e saias longas, o trabalho rendia muito mais demorativo. E havia de  ser dia a dia, pois que mais abafado, portanto, mais propenso a coisas e tais. E tome colônia! E tome creme desembaraçante! E tome minipresilhas para ensaios de penteados simplinhos mas charmantes. E outras e trecos e afins principiaram a enfeitar pelos escondidos.
E ia tudo de boa na lagoa – e talvez que tivesse continuado por essa SE – o famoso “SE”! – um dia, tratando de sua pelugem macia e delicadamente perfumada , constatou um  todo alvo, destacando-se em contraste com os outros, negros. Parou, por vários tempinhos incontáveis. Suspirou. Levantou-se e foi ao banheiro.
Saiu, quase que três horas depois, nua em pelo. Nua em pelos.

(Tetê Macambira)

talhadas de melancia


À minha vó-mãe

cortes geométricos de melancia na geladeira à espera
triângulos verde-branco-vermelhos
doçuras refrescantes
convites da fruição do sabor

melhor ainda: partilhar sensações verbais
inventar histórias, contar estórias
dividir cortes e paladares
experiências e sonhos, esperanças
criar momentos únicos inesquecíveis

- eram os nossos momentos.

Nosso pequeno prazer que, juntamente,
tornava-se uma vivência única.

Calores por demais nesta terra por hoje
Almoçar frutas, atacar geladeira
e as talhadas desmanchantes à boca
só me fazem referência a você
e a tudo que vivemos.

Sei que não poderá curtir este post
(pretensiosa e convenientemente poético)
mas, lá dentro de si, compartilhará
alegre e nostalgicamente,
tudo o que vivemos e apreendemos
- e não apenas uns nacos de melancia
(por mais deliciosa que ela estivesse! ).

(Tetê Macambira)