( Emanuel Régis e Tetê Macambira Fortaleza, 15 de agosto de 2012)
Pois é noite.
A noite que os homens translúcidos de febre
enfrentaram em forma de sal e sombras num infinito século XVI
Pois é noite.
E eu, homem do século XXI, sul-americano
ainda reconheço como a uma irmã
e sei que não me pertence
como nunca, a ninguém
Pois é noite
E os sonhos de duas mil gerações
Repousam sobre o meu corpo de 30 anos
sem traição, que não seja a da tristeza
Pois é noite
E a alegria das luzes das esquinas
Renova cada grão feroz do tempo
Que as fotografias não conseguiram cristalizar
E os relógios não marcassem os segundos
Mas tiros de canhão sobre a minha mente
e cada grão de areia nos meus sapatos
me ensinasse a beleza dos precipícios
Pois que ainda é noite
e as páginas viradas não me pertencem mais,
memórias, apenas histórias e estórias para contar
em noites de bebedeira com uma que não é mais eu
(era, mas meu tempo de agora é o presente em que vivo)
narrativas longínquas meio verdadeiras meio fantasiosas
- posto que tempo e distância a tudo embruma –
mas que me ouvem perplexados de tê-las vivenbrincado
e não me esqueço nunca de que minha noite, na real,
é este momento em que risco essas letras no quintal cheirando folhas de malvarisco
Pois é noite.
E não se pode parar para nada, apenas vive-se.
Apenas vive-se, como se alternativa nula
Como se o tempo, um brinquedo inofensivo
Como se os dias, uma ilusão do pensamento
E a morte, essa alegria inenarrável,
Brincasse sobre os meus cabelos brancos
E me ensinasse que sob o contato frívolo
com outro corpo, outra verdades revelasse
e cada boca, que beijava minha boca
e com sexo, que tocou o meu espírito
fosse, não uma carícia , mas uma lição
que os passos sardônicos dos dias
marcou sobre o meu corpo precário
E a noite continua incólume (embora eu a sinta gota a gota)
E o tempo me é anacronicamente inviável
já que meu tempo é meu e não paro para medir-lhe a circunferência
Pois há noites e noites nos anoiteceres
e que, se se para a fim de se mensurar cronologicamente,
para-se
e não se vive e a(s) minha(s) noite(s) passa(m)
e as luzes e as risadas e as tristezas
e os vômitos de declarações anódinos dele e dela
e minhas desilusões e meu dinheiro e essas anáforas infelizes
se passam em várias noites feericamente apagadas
do subconsciente da minha percepção astral
A minha noite é esta. Meu tempo é este.
O que me passou, memórias. O que virá, surpresas.
O que virá, surpresas? Não, certezas
sob as notas incertas que se desprendem
do sol que me banha a cada dia
Mas o dia, como um amigo a quem não confio
Há de trazer-me no discurso feito de brumas
uma verdade feita de labirintos
um coro, feito de cantores cegos,
em que cada porta será um deus
sem correntes, sem cordas, ou um demônio
em que minhas mãos ou os meus pés
acreditarão, como uma casa
em que não tenho certeza se algum dia morei..










