Queria poder sentir-me mal, de saudadinhas-já, mas não, nada. Sim, há algumas poucas mas excelentes pessoas de quem sentirei falta tanta e tanta que nem sei, mas, ainda assim... Alegria em observar os quadradinhos iluminados no chão ficando para trás enquanto alço voo por sobre nuvens. Vontades mesmo é de ir e não voltar. Terras alheias, com o tempo, cansam. E essa cidade de mar e sertão, já há tanto tempo ao meu redor... já me cansa desde o primeiro dia. Minha busca ao que me pertence se limita ao tangível.
E chegar. E voltar. É poder mergulhar de olhos fechados no abraço caloroso e amigo de quem me espera no aeroporto. É saber que sou bem-vinda, sim. Tantas e tantas vezes eu me vá... mas em minhas voltas, terei braços amigos à minha volta. Confortante. Aconchegante. Acolhedor. Lar.
E a cidade. Diacho de cidade bonita que é a minha! Lindinha por demais, de fazer doer de saudades e me fazer olhar para tudo com ansiedades de quem busca velhos conhecidos, de quem busca as novidades - a cidade em tranquilas mutaçõezinhas.
E a baía a me esperar. À margem do rio, uma palafita: nenhuma outra se lhe avizinhando, ao menos até onde a vista alcança. Isolar-se à beira da civilização há de ser assim. Haverá energia elétrica por lá? Não vejo fios nenhuns; apenas verde muito verde por detrás e dos lados e água muita pardacenta e doce e morna água fluvial de cismada maré pela frente quase que a perder olhares. A vista me emociona como o diabo: eu sou, aliás estou, nesse momento, aquela palafita. Posso até me arrodear de amigos. Mas cada um tem seu próprio trilhar.
Vários tons de verde são discerníveis quando se aproxima mais. e uma tênue coluna de fumaça branca me franze rapidamente o cenho. O nativo, o ribeirinho, é o ser mais antiecológico. Em sua ignorância, ele crê a floresta ser perene. Ignorância - remédio maldito.
Meia hora de atravessagem de rio. Todos já tão habituados à paisagem que ou olham hipnotizados a TV ou conferem celular. O vendedor de bolachinhas passa, oferecendo mudamente, com a mão em uma luva plástica, um de amostra grátis para cada passageiro. Mastigo e me dá vontade de mais. Procuro-o... Já vai longe tentar os outros.
Ônibus das águas. Poder-se-ia chamar assim - e o pronome mesoclítico me agrada.
Quase dez horas e tanta água e tanta umidade têm seu valor: o ar está mais fresco, quase frio. Uma delícia de brisa. O motor para. O moço me veio vender os biscoitos. Posso comprar quanto eu quiser. Peço um real. Ele põe a quantidade em um saquinho e me entrega. Mordisco. Desejos de café. Café Líder, por favor! É verdade!: não passo de uma papa-chibé. Você pode tirar a pessoa do Pará, mas o Pará jamais sairá de dentro da pessoa.
Entendi!: o comandante poupa combustível deixando o barco seguir, fluir na correnteza natural.
É quinta-feira. Minha terra morena. Meu vento verde. Meu lugar, meu coração. Meu rubro coração atravessado por uma faixa branca e a spica azul no meio.
A moça à minha frente retoca a maquiagem. Ela já é linda. A maquiagem a essa hora da manhã a faz parecer uma profissional, o que fica acentuado pelo vestidinho recoberto de paetês e os saltos altíssimos - e os cabelos com luzes. Por que toda profissional do sexo adota luzes dourando cabelos? é uma espécie de crachá?!?
Qual o coletivo de árvores? - bem, um coletivo de açaizeiros nos dão as boas-vindas. O barco agora retoma a sua rota, elabora uma curva, o porto se aproxima. As mulheres ao meu redor começam a se pentear. Sim, chegou a hora. o desembarcar efetuar-se-á (e tome mais uma mesóclise!).
Chegamos ao porto. O ônibus está já à espera. O motorista toma café com leite, recebe os passageiros com um sorriso distraído e conversa com um vendedor perto. Olho ao redor. A tapioqueira, metida em um tênis roxo, verde-limão e rosa-choque, com meias de aeróbica azul-roial puxadas por sobre a legging ricamente floral em tons de rosa e uma camiseta amarela também vende café. E me pergunta afável mas objetivamente: "Café ou café com leite?". Com leite - sempre.
Minha passagem me assinala a poltrona 07. À janela, logo atrás do banco reservado aos idosos et coetera. Fazia tempos não viajava com vento na cara e cheiros de verdes estapeando o nariz. O verde não me cansa. As casinhas interioranas parecem transbordar alegrias e placidez.
As pessoas conversam em um tom baixo, a nossa voz pequena é música por demais e acalenta uma sonequinha. As casas de madeira pintadas em alegres tons vão rareando e dando lugar às de alvenaria: sinal de que a cidade está chegando.
Como o homem paraense é gostoso e interessante! Altivo, másculo sem ser rude nem grosseirão, ele te olha fixa e escancaradamente com olhos amêndoas fixas. De postura ereta, esses tupiniquins são altamente desejáveis.
Estrada vermelha sem ser de tijolos. É a terra desta terra. Uma hora de estrada sem fim escorrendo quilômetro por quilômetro. O silêncio é um bom companheiro de viagem. Séculos haviam se passado (evidentemente hiperbólica forma de falar) sem que eu tivesse me permitido essa contemplação físico-mental. E a minha vida é vista sob parâmetros distanciados. Viajar para fora da situação a fim de melhro enxergar a situação em si pode ser aconselhável, em determinados momentos.
Minha vó sempre comentava as flores silvestres dos sertões nordestinos de sua meninice. Mas creio que tais flores lá se perderam nos tempos. No entanto, as florezinhas que diviso me acenando gaiatamente pela janela evocam a minha própria infância, feita de passeios dominicais à grande Belém do Pará.
E chegamos. Cidade quente. Porto com vendedorazinhas de comidinhas. Peço açaí. "Quer a dose ou completo?" - é o açaí das ilhas só batido, sem açúcar nem nada mais e peixe do rio frito. Um manjar digno da minha fome de papa-chibé. Hora de abocanhar comidinhas, hora de fechar diário de viagem.
(Tetê Macambira)

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