Não dá para entender.
Da metade do coletivo para trás, quase vazio. Da outra metade, rivalizando lotação com uma lata de sardinha. E as conversas?: "Você desce Aonde?", "Desço duas antes do final da linha". Só que você, no meio do coletivo... Desce dali a duas paradas.
- Senhora, com licença, vou descer daqui a duas paradas.
Ela me olha, atônita, e fico certa de que a expressão "com licença" deve conter códigos indecifráveis, incompreensíveis para ela. Devo ter soado como lhe falando em iídiche. Repito, mais pausadamente e gesticulando que pretendo sair. Creio que ela conseguiu, finalmente, entender. E há de ter sido pelo gestual. Mas olha para a frente, suspira e me sorri de volta como se pedisse desculpas, que nada pode fazer. E fica. No mesmo lugar. Sem nem nem.
É o jeito! - embarafusto-me, irrompendo por entre carnes e gorduras e reclamações e ais. À frente, uma senhora baixota e gorda me faz pensar, instantânea e irreprimivelmente, na expressão "rolha de poço". É terrível, mas automaticamente irresistível a comparação. Ela olha, em agonia, para mim, .... e vai mais para a frente. Heim?!?... Mais para a frente está todo mundo! Quase que a se sentar no colo do motorista, que deve usar um perfume tão atrativo que estão todas as senhoras lá, disputando um lugar bem pertinho dele!!! Afinal, alguém saberia dizer que perfume é o que esses motoristas usam, para que o povo grude nele desse jeito? Eras!!!....
Forço passagem inexistente! ("Espírito do universo, abra caminho por onde o homem diz que não tem caminho para se ir" - quem elaborou essa oração, deve ter pego muitos coletivos lotados até a tampa). Chego à frente, já quase à porta. Vislumbro um degrau vazio. Minha parada é a próxima.
- Senhora, com licença, vou descer na próxima.
- Ah, minha filha, QUANDO chegar na parada eu me afasto e você pode pas....
Passo por debaixo do braço e da indignação dela e me posto no abençoadamente vazio degrau, murmurando alto (sim! para que ela ouvisse!) "Ô povo para gostar de atrapalhar ficando no meio do caminho.". Sinal vermelho. Bem na pracinha. A quadra e meia da minha parada.
- Motorista, o senhor pode abrir a porta logo aqui, por favor?
Descida bendita.
E uma lição.Nunca mais pegar coletivo com esses "abençoados" do "Queremos Deus". Arre!!!
(Tetê Macambira, a sobrevivente)
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